Todos os indicadores mostram a mudança do ambiente de negócios do varejo de bens e serviços brasileiro nos últimos anos. Essa, atribuída à combinação de fatores estimulantes ao consumo, tais como políticas de transferências de renda, aumento real do salário mínimo, melhora do mercado de trabalho formal e, em especial, avanço do crédito para as pessoas físicas. Com isso, confirma-se o fôlego consumista de uma demanda reprimida ao longo dos anos dominados pela inflação mensal de dois dígitos.
Assim, o crescimento inclusivo da economia garantiu ao país capacidade de reação às adversidades internacionais, revelando ao mundo a força do mercado interno, impulsionador da expansão do PIB desde 2004, tornando-o destino atrativo de investimentos. Com isso, o setor dominado em mais de 99% por micro e pequenos negócios passou a buscar novos canais de vendas, a conviver sob o espectro das redes sociais e, gradativamente, a incorporar conceitos como tecnologia, dando fim à gestão do feeling, baseada no achismo ou na experiência herdada. Nunca na história do varejo valorizou-se tanto a relação com o cliente e com o capital humano, a criação de um ambiente de compra saudável, a eficiência como condicionante de precificação e agregação de valor. Por outro lado, o consumidor tornou-se, cada vez mais exigente, consciente, a valorizar a experiência alheia, comparar preços, benefícios, condições de pagamentos, priorizar as atitudes sustentáveis e reconhecer o seu papel como ator transformador dos processos de compra e venda. O varejo está em processo veloz de mudança, independente do porte da empresa, da categoria de mercadoria, principal indicador dos efeitos da estabilidade monetária sobre a economia produtiva e comercial.
Contudo, é inegável que o acesso ao crédito vem atuando como vetor dinamizador do crescente consumo. A concessão de crédito garante a bancarização das pessoas, a realização de sonhos potencializada pela disseminação dos meios eletrônicos de pagamentos junto à população incluída, utilizados, em especial, como instrumentos de parcelamentos. O Banco Central reconhece em seus estudos a evolução desse meio, cujo uso sem conhecimento acaba sendo alimentador do risco da inadimplência e, por conseqüência, da exorbitante taxa de juros cobrada pelo não pagamento integral das despesas, que atinge a órbita de 324,78% ao ano. Juros, conceito pouco palatável para a maioria dos usuários, que priorizam o valor da parcela sobre o salário e, esquecem, que o somatório de muitas parcelas adicionado as despesas correntes do mês acabam extrapolando sua real capacidade de pagamento. Bola de neve que alimenta a inadimplência, o risco, os juros e que poderá tirar no futuro os consumidores do mercado de varejo.
Nesse aspecto, cabe uma reflexão com olhar prospectivo. Se o objetivo é o país destacar-se aos olhos do mundo como grande mercado de consumo, se os micro e pequenos empreendedores têm no varejo o campo fértil de oportunidades e gerador de emprego é fundamental criar um mercado em bases sólidas. Isso representa envidar esforços para a redução das taxas de juros praticadas pelo sistema financeiro, principal responsável pela emissão dos cartões de crédito. Vender o sonho do dinheiro de plástico fere o modelo de varejo responsável e cria uma visão de curto prazo, incompatível com a gestão sustentável. Essa é uma realidade que os empresários varejistas devem trabalhar: exigir um ambiente com sistema de regulação mais saudável nas relações com bancos e adquirentes, não restritas às taxas de administração nos processos de vendas, mas exigir juros aos usuários compatíveis com a realidade do mercado. Taxas mensais de dois dígitos corroem o poder de compra das pessoas, cuja experiência com o crédito facilitado é recente e o sonho reprimido é fomentado pelo avanço da tecnologia industrial e busca insaciável do bem-estar econômico. O varejo é um segmento heterogêneo pelas especificidades de suas mercadorias transacionadas, assim o estímulo e o uso inadequado do cartão é gerador de concorrência desleal dentro da economia formal. Isto é, o consumidor desinformado acaba pagando taxa de juros exorbitantes e capitalizados pelo esforço de vendas da indústria de cartões, que no futuro inibirão sua capacidade de compra, retirando-o do mercado. ? um modelo que precisa ser atacado por todos os empresários que buscam concorrência e vendas sustentáveis. Assim, o varejo continuará sendo o setor impulsionador do PIB, em base de relações negociais saudáveis.
* Gerente do Departamento de Economia, Comércio Exterior e Micro e Pequena Empresas da Fecomércio Minas
SILV?NIA DE ARAÚJO * .
Diário do Comércio 15-02-2012