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fevereiro

  • 09 de fevereiro

    LUCRO COM CACAU »Páscoa meio amarga

    Ovos de chocolate devem chegar às lojas na quarta-feira de cinzas, com reajustes de até 10%. Fabricantes se reúnem em feira, na capital paulista, para apresentar novidades e tendências

    Frederico Bottrel
    De São Paulo*

    Chocólatras inveterados podem preparar os bolsos para gastar até 10% a mais com os ovos de Páscoa. Esse é o reajuste aplicado sobre os preços praticados no mesmo período do ano passado, que algumas das principais empresas do setor devem repassar para os consumidores no período em que mais se consome chocolate no país. Os movimentos de alta nas commodities, precificadas internacionalmente, como o cacau e o açúcar, são a principal justificativa dos fabricantes – além dos brinquedinhos chineses que geralmente recheiam os ovos, que também ficaram mais caros.

    "Esse mercado de insumos oscilou bastante no último ano também devido à indefinição do cenário externo. Mas a produção de chocolates no Brasil tem situação mais confortável, com avanço de 7% na comparação com a Páscoa de 2010, o que significou 18 toneladas do produto", diz Ubiracy Fonseca, vice-presidente da Associação Brasileira da Indústria de Chocolate, Cacau, Amendoim, Balas e Derivados (Abicab).

    Com 92% do mercado de chocolates representado pela associação, começou ontem, em São Paulo, a 23ª edição do Salão de Páscoa, com as principais armas das empresas para atrair a atenção dos consumidores. Cautelosos, os executivos do setor evitam revelar estimativas de vendas, mas esperam "Páscoa gorda", nas palavras de Fonseca. A sazonalidade está a favor da indústria: os fabricantes de chocolate comemoram quando o feriado cai mais distante do início do ano, longe das despesas com material escolar e impostos diversos que apertam o consumidor. A Páscoa deste ano será celebrada em 8 de abril.

    Outro ponto a favor das vendas é o potencial de crescimento do mercado. O consumo per capita de chocolates no Brasil é hoje de 2,2 kg anuais. Há dois anos, era 1,6 kg. "O grande responsável por esse aumento é a classe C, que tem se tornado também mais exigente."

    Com isso, tendências permeiam a série de lançamentos – as 12 empresas que participam do evento prometem 90 novidades nas parreiras de ovos de chocolate que invadem os supermercados e outras lojas já na quarta-feira de cinzas. Os ovos baseados em matrioshkas, as bonequinhas russas encapsuladas, são aposta de marcas como Lacta e Nestlé, na esteira do caminho aberto pela Copenhagen há duas Páscoas.

    "O nosso ovo comemorativo dos 100 anos de Lacta tem marcas como Diamante Negro, Sonho de Valsa, Bis e Chocolate ao leite no mesmo produto", destaca a gerente de marketing da empresa, Mariana Perota. O produto foi desenvolvido a partir de pesquisas com consumidores. No centenário, a companhia, controlada pela Kraft Foods, vai colocar no mercado 2 milhões a mais de ovos – chegando a 27 milhões. Minas Gerais, interior do Rio de Janeiro e o Espírito Santo respondem por 7,5% desse total.

    O reajuste de preços médio nos ovos Lacta para esta Páscoa será de 9%. A Acor prevê repasse de 10%. A Nestlé, 4% e a Garoto, 3%. "Sofremos as mesmas pressões de commodities, mas tentamos simplificar a produção e ganhar em escala. Cortar onde dá para evitar o repasse desses aumentos para o consumidor", explica André Barros, gerente de marketing da Garoto.

    CRESCENDO JUNTO Outro segredo guardado a sete chaves é a participação dos produtos infantis no faturamento. "Os investimentos em licenciamentos giram em torno de 40% do total destinado à Pascoa, e mais da metade do nosso portfólio é focado em produtos licenciados" , conta Oswaldo Nardinelli Filho, diretor geral da Arcor, rodeado pelos palhaços Patati Patatá, que estampam embalagens e participam de ações de marketing.

    A indústria do chocolate bate um papo milionário com a do entretenimento e daí saem parcerias que são definidoras na tomada de decisão do consumidor. As cores das embalagens, personagens de filmes e desenhos animados são aposta fundamental das grandes marcas.

    Nesse sentido, acompanhar o crescimento das crianças é estratégia que se revela nos lançamentos do ano. Na linha de novidades da Nestlé, produtos que têm vedetes um pouco mais maduras jogam holofotes sobre os adolescentes, como explica o gerente de marketing da Nestlé, Ricardo Bassani: "São consumidores muito exigentes, extremamente bem informados e os produtos, sofisticados. O ovo do Justin Bieber vem com a correntinha que ele usa e um código para baixar uma música dele na internet. O do Piratas do Caribe dá também acesso a um game on-line, com ranking de desempenho exclusivo".

     

    Pequenas marcas abrem caminho

     

    Chocolaterias menores ditam tendências no setor. Se hoje os ovos baseados nas bonecas russas, com vários sabores, um dentro do outro, já são apostas de grandes marcas, tudo começa na experimentação das pequenas. "Isso faz parte do nosso negócio, a escala nos permite sair à frente e, para os grandes, é mais difícil se adaptar a esses novos produtos”, diz Renata Moraes Vichi, vice-presidente do Grupo CRM, que tem a Kopenhagen e a Brasil Cacau.

    A fábrica de chocolates do grupo funciona em Extrema, no Sul de Minas, produzindo 3 mil das 10 mil toneladas da capacidade instalada. "Estamos crescendo com calma", diz a executiva, sobre a fábrica instalada no Sul do estado.

    As fábricas da Bauducco voltadas para as colombas pascais e da Barry Caalebaut, com foco no chamado mercado de transformação, para cozinheiros e chefs, também ficam em Extrema. "É estratégico estar na região, cujo entorno concentra 75% do Produto Interno Bruto (PIB) do país", diz Antonio Moreira, gerente de vendas.

    Tomando isso por base, apostas arriscadas, como a que a Cacau Show traz este ano, podem cair no gosto da indústria nos próximos anos. "A principal novidade é o que chamamos de Cross Fertilization: são dois ovos, de sabores diferentes, que, ao serem saboreados em conjunto, criam um terceiro sabor na boca", detalha Alexandre Costa, presidente da empresa.

    Estado de Minas 09-02-2012