O conserto de bens, em especial, os mais baratos está cada vez mais em desuso. O apelo tecnológico, a dificuldade de encontrar peças e o preço do serviço, muitas vezes alto, está fazendo com que vários produtos parem no lixo e não sejam reaproveitados, como acontecia no passado.
O técnico Manoel Roberto de Macedo, da Acessível Consertos, afirma que atualmente tudo é descartável. "Hoje, praticamente não há bens duráveis", ressalta. Ele reclama da dificuldade de encontrar peças. "A indústria, infelizmente, está complicando a vida dos profissionais. É cada dia mais complicado encontrar peças de reposição", diz.
De acordo com Macedo, os fabricantes não permitem que muitos modelos de refrigeradores contem com a facilidade de troca de peças simples, como a borracha de vedação. "Teve um caso de um cliente que teve que trocar a porta inteira de sua geladeira duplex, pois não tinha como comprar só a borracha. Ele teria que pagar em torno de R$ 480, só a borracha ficaria entre R$ 140 e R$ 150", conta. Ele lembra que uma geladeira nova custa em torno de R$ 900.
Diante desse cenário, o técnico, que tem 25 anos de mercado, ressalta que o movimento caiu muito. "Até 2003, eu chegava a fazer 15 atendimentos por dia. Hoje, se eu consigo de dois a três por semana é muito", observa. De acordo com ele, em janeiro, os negócios tiveram redução de 35% na comparação com o mesmo mês de 2011. "E na primeira semana de fevereiro, o recuo foi de 92%, diz. Macedo passou a oferecer garantia mais longa pelos seus serviços, até 2 anos, como forma de atrair clientes. "Também procuro dividir no cheque. E estou sempre estudando para atuar em áreas diversificadas", conta.
Lojas lucram com nova realidade
O proprietário da Antende Celulares, Frederico Lemos Magalhães, confirma que não vale a pena consertar um celular barato. "Eu trabalho com conserto de aparelhos que custam entre R$ 1.000 e R$ 2.000. Se não fosse isso, talvez não sobrevivesse", diz.
A opção pelo conserto de produtos mais caros, com sofás de alto padrão, é o que ajudou a Estofados Iraí a ter mais serviços em janeiro desse ano ante igual período de 2011, conforme o estofador Isaías Lúcio da Silva. "Consertar um conjunto de estofados por até R$ 1.500 compensa para estofados que valem de R$ 2.000 a R$ 2.500", diz.
O alto preço do conserto e a garantia oferecida pelo fabricante de produtos novos são alguns dos fatores que têm levado os consumidores a evitarem o reaproveitamento. É o caso do bombeiro eletricista Murilo de Oliveira. "Prefiro o novo para não ter aborrecimento", diz. Ele conta que teve uma má experiência com o conserto de um aparelho de som. "Mandei consertar, mas duas semanas depois deu problema de novo. A garantia do conserto é curta, no máximo três meses", diz.
Para Oliveira, diante do atual cenário de consumo, o brasileiro está cada vez mais parecido com o norte-americano. "E vamos ter mais lixo eletrônico, pois não compensa consertar", salienta. A doméstica Sidorina Jerônimo Dutra conta que para aparelhos mais baratos, como os celulares, prefere comprar um novo. "Eu também mando consertar, quando compensa. Para meu conjuntos de sofás, eu preferi consertar. Foi uma boa opção, pois tive uma economia de uns R$ 500. Se eu fosse comprar novo, ficaria muito mais caro", diz.
Já a aposentada Terezinha Augusta de Oliveira prefere comprar um produto novo, quando ele é mais barato. "Se ele for caro, é melhor consertar", diz. (JG) O Tempo 07-02-2012